Representantes governamentais da área da saúde das esferas federal, estadual e municipal, associação de pacientes e sociedade médica se reuniram no workshop “Bio-Manguinhos e a abordagem holística no tratamento do paciente diabético”, que faz parte da programação pré-evento do IV International Symposium on Immunobiologicals, organizado pelo Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz). O encontro reuniu cerca de 25 pessoas no Museu de Arte do Rio (MAR), no Centro do Rio de Janeiro, no dia 3 de maio.

O workshop contou com a coordenação de Denizar Vianna, Secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, e Maria de Lourdes Maia, coordenadora da Assessoria Clínica de Bio (Asclin). Ao abrir a discussão, Denizar destacou a importância da aproximação do Ministério da Saúde com as sociedades médicas, associação de pacientes e da Fiocruz para entender melhor quanto às transferências de tecnologia de produtos que serão ofertados gratuitamente aos pacientes de doenças raras, crônicas e autoimunes pelo SUS. 

“Temos várias experiências exitosas como o primeiro biossimilar adquirido através da Parceria de Desenvolvimento Produtivo (PDP), que é o etanercepte, para o tratamento de doenças como a doença de Crohn, artrite reumatoide, espondilite anquilosante, artrite psoriática e colite ulcerosa. Temos que reduzir a mortalidade e morbidade dos pacientes com diabetes não só colocando esforços e investimentos na Farmácia Popular e na Atenção Básica, mas trabalhando melhor em rede e formulando mecanismos principalmente para diminuir as amputações”, frisou.

Para ele, o foco principal para a mudança desse quadro está na educação do paciente e na qualificação dos profissionais que trabalham na ponta. “Nós do Ministério da Saúde entendemos a necessidade de um melhor acompanhamento dos problemas de cada paciente e do avanço das pesquisas clínicas Brasil a fora, além da farmacovigilância, elevando a qualidade dos serviços do SUS”, finalizou.

Luciana Bahia, endocrinologista da UERJ com atuação em diabetes e economia da saúde, mostrou alguns dados preocupantes no Brasil: são 13 milhões de adultos com diabetes, aproximadamente 8% da população do país. “Essas pessoas possuem uma série de complicações de saúde e, por isso, morrem mais cedo, sofrem amputações, perdem a produtividade e se aposentam cedo. Nos últimos anos, diminuiu a mortalidade mas continuam vivendo com mais incapacidades. O Brasil ocupa o quarto lugar no número de casos”, enalteceu.

Através de pesquisas feitas mundialmente, Luciana comprovou que os governos gastam centenas de milhões de dólares no tratamento da doença e com amputações. “Isso sobrecarrega economicamente as nações. Temos que investir mais em prevenção, educação e atenção multidisciplinar”, concluiu.

 

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Rosane Kupfer apresentou o trabalho do IEDE, que é referência
no Rio de Janeiro.

 

Atuação da SBD

Hermelinda Pedrosa, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), forneceu mais alguns números preocupantes: um terço dos pacientes tem problemas com os pés e 85% das amputações são precedidas de úlceras. "É assustador saber que 58% dos pacientes nunca tiveram os pés examinados e, para isso, a única coisa a ser feita é o profissional pedir para eles tirarem os sapatos. Analisar visualmente as condições das veias e nervos dos pés já evitaria muitas amputações", afirmou. 

Cuidar de uma úlcera na pé pode levar um ano até sua cicatrização completa. "Quando isso acontece, temos que considerar o paciente em remissão, não como curado. Padronizar esse cuidado no país é de extrema importância: fazer investimentos em exames como o estesiômetro e fazer testes na fibra fina. Só o SBD não consegue dar conta de tantos pacientes, mas através do nosso aplicativo podemos monitorá-los e ter seu histórico registrado", explicou Hermelinda.

Ela contou sobre o Projeto Salvando o Pé Diabético e explicitou que o apoio do governo é necessário. "Agora, estamos realizando no Brasil inteiro o Programa Step by Step e já capacitamos 1086 profissionais. Com isso, mais médicos estarão mais preparados para oferecer um cuidado com continuidade. Nos últimos meses, estamos com o apoio da Fiocruz, uma respeitada instituição que tem como missão a melhoria da saúde pública", destacou.

Ela deu detalhes sobre o estudo “Avaliação da eficácia e segurança do fator de crescimento epidérmico recombinante (FCEhr) intralesional em participantes com úlcera de pé diabético no Brasil” promovido por Bio em oito estados. A equipe está tendo dificuldades em conseguir 304 participantes que estejam dentro dos pré-requisitos estabelecidos. 

"Precisamos curar úlceras nos pés dentro de determinados tamanhos, mas o que mais encontramos são pacientes prestes a amputar o membro. Para ajudar na melhora dessa condição, é preciso fazer o diagnótico precoce para encaminhar imediatamente ao tratamento, pois a infecção age rapidamente. No tratamento, é necessário fazer a descarga do peso e os pacientes devem utilizar palmilhas e sapatos apropriados", sugeriu a especialista.

Rosane Kupfer, endocrinologista do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia (IEDE), falou sobre o instituto que é referência no Rio de Janeiro. "Realizamos cerca de 1200 atendimentos por mês, participamos de feiras e promovemos a adesão dos pacientes. O nosso diferencial é a equipe muldisciplinar que atua em grupo para atender a cada complicação de cada paciente", salientou.

 

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Hermelinda Pedrosa é PI de estudo clínico que busca 
participantes
com úlcera de pé diabético.

 

Debate

Durante as discussões, os participantes concordaram que deve acontecer uma melhor interface entre as esferas municipais, estaduais e federais para realizar o acompanhamento do paciente. São necessárias melhorias nos prontuários eletrônicos e na comunicação de dados. A promoção da saúde, a prevenção e a educação do paciente também foram citados como extremamente importantes, além da educação continuada dos profissionais. 

Um ponto a ser melhorado é o fornecimento de mais sapatos e palmilhas adequados, uma das principais atividades da atenção secundária que deve ser fortalecida. "As atenções primária e terciária estão funcionando mais que a secundária. E é aí que estamos pecando, pois é na linha de cuidado da reabilitação que devemos focar nossos esforços", frisou Maria de Lourdes.

E, para finalizar, foi discutido que é preciso fortalecer a atuação da farmacoterapia, investimentos em pesquisas clínicas e colocar todos esses assuntos como pautas nas próximas reuniões do Conselho Nacional de Saúde. Inclusive, tentar implementar centros de diabetes que possam contar com um corpo multidisciplinar de especialistas (para cuidar das complicações da doença), reunindo em um só lugar as atenções primária, secundária e terciária. Afinal, no interior, é comum pacientes com dificuldade de locomoção precisar ir a cidades vizinhas para se tratar. 

 

Jornalista: Gabriella Ponte
Imagens: Bernardo Portella